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Negritude sem etnicidade

Negritude sem etnicidade: o local e o global nas relações raciais e na produção cultural negra do Brasil

Livio Sansone
Tradução: Vera Ribeiro
Copyright Date: 2003
Published by: SciELO – EDUFBA
https://doi.org/10.7476/9788523211974
Pages: 352
OPEN ACCESS
https://www.jstor.org/stable/10.7476/9788523211974
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  • Book Info
    Negritude sem etnicidade
    Book Description:

    Com base em 15 anos de pesquisa na Bahia, no Rio, no Suriname e na Holanda, Livio Sansone indaga sobre as formas específicas que "raça" e etnicidade assumem no Brasil e no resto da América Latina. Ele compara as concepções latino-americanas de "raça" com as concepções dominantes nas ciências sociais, centradas em contextos determinados por identidades branco-negro claramente definidas, formuladas na base da situação dos Estados Unidos e da Europa do Noroeste. Sansone sugere que o estudo de noções de identidade e cultura mais complexas e até "ambíguas", certamente contribui para uma compreensão mais universal das tensões etno-raciais e de por que o pensamento racial continua tão forte. Ele também investiga os efeitos da globalização sobre as diferentes construções da noção de raça.

    eISBN: 978-85-232-1197-4
    Subjects: Sociology

Table of Contents

  1. (pp. 9-36)

    No final da década de 1970, como muitos jovens italianos de minha geração, eu havia passado a “conhecer” as relações raciais e a sociedade brasileiras à distância. A música, a literatura e o cinema do Brasil tinham sido incorporados em nossa visão panorâmica da América Latina, que víamos como uma versão ampliada e até “exagerada” da Europa meridional. Em nossa imaginação, as coisas boas eram melhores no Brasil e as ruins eram piores. As boas tinham a ver com o povo brasileiro — especialmente com a população negra e mestiça — e as ruins, com sua elite. Meu primeiro contato direto com...

  2. (pp. 37-88)

    Iniciei minha exploração das relações raciais no Brasil examinando de perto a terminologia racial, sua lógica interna e sua evolução ao longo da história. Para indicar o contexto dessa investigação, começaremos por uma visão geral da posição socioeconômica dos afro-brasileiros no Brasil, e especialmente na Bahia. Forneceremos também uma descrição de como minha pesquisa na Bahia procurou basear-se no panorama retratado pela estatística e questioná-lo.

    Salvador é a capital do estado da Bahia, no nordeste do Brasil, região que já foi descrita como “a borda sul do Caribe”. Um sistema de cultivo da terra predominantemente baseado na cana-de-açúcar, uma percentagem...

  3. (pp. 89-138)

    A “África”, ou seja, as interpretações das coisas e traços tidos como de origem africana, tem sido axial no processo de mercantilização das culturas negras. Ao longo de todo o intercâmbio transatlântico que levou à criação das culturas negras tradicionais e modernas, a “África” tem sido infindavelmente recriada e desconstruída. “África” tem sido um ícone contestado, do qual usam e abusam as culturas acadêmica e popular, os discursos populares e elitistas sobre a nação e seu povo, e as políticas progressista e conservadora. Na América Latina, aliás, a “África” foi não apenas essencial à formação da cultura negra, da cultura...

  4. (pp. 139-164)

    Vimos que a cultura afro-baiana tradicional, apesar de freqüentemente celebrada por suas supostas raízes locais, tem importantes ligações transnacionais. As novas formas que a cultura negra vem assumindo na Bahia urbana tem uma orientação bem mais internacional, nem que seja apenas pelo fato de a região vir ficando cada vez mais exposta à globalização. Na verdade, o ressurgimento étnico (a redescoberta do específico) e o desenvolvimento de um sistema mundial de cultura (a generalização do específico) não precisam ser antitéticos. Considero proveitoso pensar nesses processos recentes como uma “heterogeneização global”.

    A globalização ocorre através de uma troca desequilibrada de bens,...

  5. (pp. 165-208)

    Vimos há pouco como as novas formas de produção cultural negra mesclam identidades baseadas na etnicidade com identidades baseadas na diferença entre gerações, e como, em muitas oportunidades, elas se relacionam intimamente com outro fator fundamental: os estilos e a economia da música popular. Ao analisar um importante fenômeno dos vastos arredores da cultura juvenil global — a popularidade maciça dos bailes funk populares no Rio de Janeiro e em Salvador —, senti-me curioso sobre o modo como certas idéias aceitas sobre os mecanismos da globalização pareciam não se coadunar com esse cenário. É preciso fornecer exemplos concretos do que entendemos...

  6. (pp. 209-244)

    Grande parte do que se tem descrito com freqüência como “diferente”, “típico”, “ambíguo” e “misto”, nas relações raciais brasileiras, adquiriu os seus rótulos — tanto positivos quanto negativos — sobretudo através da comparação com os Estados Unidos, um sistema racial comumente tido como centrado no eixo simples negro-branco. A comparação com outros sistemas é parte integrante das relações raciais. As idéias de raça e do que define “negro” e “branco” longe de ser simplesmente universais — também são específicas e derivam de um espaço, um território ou um país particulares.

    Este capítulo⁹² mostra como alguns segredos, contradições e absurdos das relações raciais brasileiras...

  7. (pp. 245-298)

    Vimos que é necessária mais do que a ascendência africana ou a experiência de discriminação para fazer com que as pessoas se tornem “negras” ou afro-brasileiras por elas mesmas. Esse é um caso em que uma andorinha só não faz verão. Vimos também que pode haver negritude sem uma comunidade (negra) ou uma cultura negra de tipo tradicional.

    Ao longo deste livro, tenho procurado atentar para a tensão entre os aspectos locais, globais e aqueles que, no caso das populações negras, têm sido tradicionalmente similares em todo o Atlântico Negro — o que Paul Gilroy (2001) chamou brilhantemente de “a mesmice...